Em parte, a arquitecta revia-se na irmã do amigo, uma vez que também ela sempre sofrera uma lacuna relativa aos pais - o parto de Margarida reivindicara a vida da mãe.
Assim, a jovem considerava entender o que sentia a pequena Teresa e encarava, mais do que nunca, a desmedida dedicação de Rafael à música como uma repercutição da conduta do pai, o distinto jurisconsulto Filipe Pereira de Castro, cujas funções absorviam toda a paixão.
A pequena Teresa, no entanto, em nada se assemelhava a Margarida, que desde cedo revelava a vivacidade e audácia maternas: a arquitecta sempre conhecera a irmã de Rafael envolta numa curiosa aura de mistério - mesmo antes do acidente dos Vasconcelos.
Com efeito, os Vasconcelos eram senhores de uma sentimentalidade singular: exprimiam-se por poucas mas significativas palavras, partilhavam a profundidade do olhar, a inefabilidade dos gestos e o arrebatamento pelas artes e, perante isto, Margarida aguardava do pedido de Teresa de rever a prima, Érica, mais uma figura verdadeiramente distinta do protótipo comum.
- Agora me lembro, - revelou Margarida, enquanto estacionava o carro, a poucos metros do destino pretendido - o Rafael falou-me de uma prima vossa... mais ou menos da tua idade... que cantava muito bem... é a Érica?
Teresa acenou negativamente, enquanto se desembaraçava do cinto.
- Essa é a Sofia, a irmã da Érica. – esclareceu a pequena.
- E não te dás bem com a Sofia?
Mas Teresa já não a ouvira. E enquanto Margarida principiava a dirigir-se para a porta de entrada, a pequena precipitara-se para as traseiras. A arquitecta, que estranhara aquele ímpeto, cedo o compreendera: nas traseiras da casa, por trás de uma imponente tela, encontrava-se uma rapariga um pouco mais velha que Teresa.
Érica, assim que percepcionara os passos de Teresa, esboçara um sorriso; permanecia, no entanto, quase acinética por trás da tela. Margarida, já versada nas particularidades dos Vasconcelos, fez ar de circunstância: deteve-se ao lado da irmã do músico e aguardou que Érica terminasse.
Alguns minutos depois, Érica moveu diagonalmente a face e lançou um olhar às duas, um olhar que não manteve muito tempo, por ter de afastar algumas farripas da franja irregular com outro movimento.
A figura da prima de Teresa era, como Margarida já a suspeitava, bastante invulgar. Trajava-se com simplicidade e elegância: apresentava uma espécie de túnica que lhe deixava um dos ombros e os dois braços a descoberto, condição que lhe facultava uma total liberdade de movimentos, e umas calças de ganga arregaçadas. O cabelo, que a jovem pintora prendera cruzando dois lápis, era da mesma cor do de Teresa, mas diferenciava bastante do desta, por ser inteiramente liso. Deslocava o pincel na tela com uma destreza fascinante: cada gesto seu era certo, veemente. Parecia existir apenas o cenário que inspirava Érica e os contornos ainda incógnitos que acendia no papel.
Subitamente, a prima de Teresa cessou. Afastou-se da tela, com o pincel bem firme na sua mão direita e a paleta, elevada, na esquerda, ostentando uma expressão grave. Cerrou levemente os olhos e percorreu com eles todo o perímetro do papel, como que selando a sua obra. Por fim, virou-se para uma pequena mesa que estava a seu lado, posou a paleta e mergulhou o pincel num boião de água límpida. Através da transparência do fino vidro, durante alguns segundos, foi possível contemplar-se o desenlace de um conjunto de fios avermelhados, como veias que revelavam o seu trajecto circulatório, responsáveis pela condução da cor a todas as fracções de matéria. Depois, girou o pincel no sentido dos ponteiros do relógio, e a água ficou totalmente tingida.
Finalizado o ritual artístico de Érica, Teresa caminhou para a frente da tela.
- Eu volto já – rematou Érica, que amontoara alguns dos vários recipientes de tinta, de modo a levá-los para dentro.
- O que é? – perguntou Margarida, curiosa.
- É o futuro – replicou Teresa.
Margarida transitou para junto de Teresa. No seu olhar espelhava-se um cenário supremo: Érica havia retratado o entornar dos raios do sol sob as planícies de verde esbatido. Todas as cores do crepúsculo bailavam, confusas, numa miscelânea de relevos celestiais. As nuvens eram como véus etéreos, que ora desvaneciam, ora incendiavam, rodopiando todo o seu esplendor eucromático ao longo daquele horizonte. O futuro... Sim, o futuro: o terno sorriso de Teresa fez a arquitecta abraçar a sua interpretação.
Assim, a jovem considerava entender o que sentia a pequena Teresa e encarava, mais do que nunca, a desmedida dedicação de Rafael à música como uma repercutição da conduta do pai, o distinto jurisconsulto Filipe Pereira de Castro, cujas funções absorviam toda a paixão.
A pequena Teresa, no entanto, em nada se assemelhava a Margarida, que desde cedo revelava a vivacidade e audácia maternas: a arquitecta sempre conhecera a irmã de Rafael envolta numa curiosa aura de mistério - mesmo antes do acidente dos Vasconcelos.
Com efeito, os Vasconcelos eram senhores de uma sentimentalidade singular: exprimiam-se por poucas mas significativas palavras, partilhavam a profundidade do olhar, a inefabilidade dos gestos e o arrebatamento pelas artes e, perante isto, Margarida aguardava do pedido de Teresa de rever a prima, Érica, mais uma figura verdadeiramente distinta do protótipo comum.
- Agora me lembro, - revelou Margarida, enquanto estacionava o carro, a poucos metros do destino pretendido - o Rafael falou-me de uma prima vossa... mais ou menos da tua idade... que cantava muito bem... é a Érica?
Teresa acenou negativamente, enquanto se desembaraçava do cinto.
- Essa é a Sofia, a irmã da Érica. – esclareceu a pequena.
- E não te dás bem com a Sofia?
Mas Teresa já não a ouvira. E enquanto Margarida principiava a dirigir-se para a porta de entrada, a pequena precipitara-se para as traseiras. A arquitecta, que estranhara aquele ímpeto, cedo o compreendera: nas traseiras da casa, por trás de uma imponente tela, encontrava-se uma rapariga um pouco mais velha que Teresa.
Érica, assim que percepcionara os passos de Teresa, esboçara um sorriso; permanecia, no entanto, quase acinética por trás da tela. Margarida, já versada nas particularidades dos Vasconcelos, fez ar de circunstância: deteve-se ao lado da irmã do músico e aguardou que Érica terminasse.
Alguns minutos depois, Érica moveu diagonalmente a face e lançou um olhar às duas, um olhar que não manteve muito tempo, por ter de afastar algumas farripas da franja irregular com outro movimento.
A figura da prima de Teresa era, como Margarida já a suspeitava, bastante invulgar. Trajava-se com simplicidade e elegância: apresentava uma espécie de túnica que lhe deixava um dos ombros e os dois braços a descoberto, condição que lhe facultava uma total liberdade de movimentos, e umas calças de ganga arregaçadas. O cabelo, que a jovem pintora prendera cruzando dois lápis, era da mesma cor do de Teresa, mas diferenciava bastante do desta, por ser inteiramente liso. Deslocava o pincel na tela com uma destreza fascinante: cada gesto seu era certo, veemente. Parecia existir apenas o cenário que inspirava Érica e os contornos ainda incógnitos que acendia no papel.
Subitamente, a prima de Teresa cessou. Afastou-se da tela, com o pincel bem firme na sua mão direita e a paleta, elevada, na esquerda, ostentando uma expressão grave. Cerrou levemente os olhos e percorreu com eles todo o perímetro do papel, como que selando a sua obra. Por fim, virou-se para uma pequena mesa que estava a seu lado, posou a paleta e mergulhou o pincel num boião de água límpida. Através da transparência do fino vidro, durante alguns segundos, foi possível contemplar-se o desenlace de um conjunto de fios avermelhados, como veias que revelavam o seu trajecto circulatório, responsáveis pela condução da cor a todas as fracções de matéria. Depois, girou o pincel no sentido dos ponteiros do relógio, e a água ficou totalmente tingida.
Finalizado o ritual artístico de Érica, Teresa caminhou para a frente da tela.
- Eu volto já – rematou Érica, que amontoara alguns dos vários recipientes de tinta, de modo a levá-los para dentro.
- O que é? – perguntou Margarida, curiosa.
- É o futuro – replicou Teresa.
Margarida transitou para junto de Teresa. No seu olhar espelhava-se um cenário supremo: Érica havia retratado o entornar dos raios do sol sob as planícies de verde esbatido. Todas as cores do crepúsculo bailavam, confusas, numa miscelânea de relevos celestiais. As nuvens eram como véus etéreos, que ora desvaneciam, ora incendiavam, rodopiando todo o seu esplendor eucromático ao longo daquele horizonte. O futuro... Sim, o futuro: o terno sorriso de Teresa fez a arquitecta abraçar a sua interpretação.

