domingo, 1 de Abril de 2007
V
Em parte, a arquitecta revia-se na irmã do amigo, uma vez que também ela sempre sofrera uma lacuna relativa aos pais - o parto de Margarida reivindicara a vida da mãe.
Assim, a jovem considerava entender o que sentia a pequena Teresa e encarava, mais do que nunca, a desmedida dedicação de Rafael à música como uma repercutição da conduta do pai, o distinto jurisconsulto Filipe Pereira de Castro, cujas funções absorviam toda a paixão.
A pequena Teresa, no entanto, em nada se assemelhava a Margarida, que desde cedo revelava a vivacidade e audácia maternas: a arquitecta sempre conhecera a irmã de Rafael envolta numa curiosa aura de mistério - mesmo antes do acidente dos Vasconcelos.
Com efeito, os Vasconcelos eram senhores de uma sentimentalidade singular: exprimiam-se por poucas mas significativas palavras, partilhavam a profundidade do olhar, a inefabilidade dos gestos e o arrebatamento pelas artes e, perante isto, Margarida aguardava do pedido de Teresa de rever a prima, Érica, mais uma figura verdadeiramente distinta do protótipo comum.

- Agora me lembro, - revelou Margarida, enquanto estacionava o carro, a poucos metros do destino pretendido - o Rafael falou-me de uma prima vossa... mais ou menos da tua idade... que cantava muito bem... é a Érica?

Teresa acenou negativamente, enquanto se desembaraçava do cinto.

- Essa é a Sofia, a irmã da Érica. – esclareceu a pequena.
- E não te dás bem com a Sofia?

Mas Teresa já não a ouvira. E enquanto Margarida principiava a dirigir-se para a porta de entrada, a pequena precipitara-se para as traseiras. A arquitecta, que estranhara aquele ímpeto, cedo o compreendera: nas traseiras da casa, por trás de uma imponente tela, encontrava-se uma rapariga um pouco mais velha que Teresa.
Érica, assim que percepcionara os passos de Teresa, esboçara um sorriso; permanecia, no entanto, quase acinética por trás da tela. Margarida, já versada nas particularidades dos Vasconcelos, fez ar de circunstância: deteve-se ao lado da irmã do músico e aguardou que Érica terminasse.
Alguns minutos depois, Érica moveu diagonalmente a face e lançou um olhar às duas, um olhar que não manteve muito tempo, por ter de afastar algumas farripas da franja irregular com outro movimento.
A figura da prima de Teresa era, como Margarida já a suspeitava, bastante invulgar. Trajava-se com simplicidade e elegância: apresentava uma espécie de túnica que lhe deixava um dos ombros e os dois braços a descoberto, condição que lhe facultava uma total liberdade de movimentos, e umas calças de ganga arregaçadas. O cabelo, que a jovem pintora prendera cruzando dois lápis, era da mesma cor do de Teresa, mas diferenciava bastante do desta, por ser inteiramente liso. Deslocava o pincel na tela com uma destreza fascinante: cada gesto seu era certo, veemente. Parecia existir apenas o cenário que inspirava Érica e os contornos ainda incógnitos que acendia no papel.
Subitamente, a prima de Teresa cessou. Afastou-se da tela, com o pincel bem firme na sua mão direita e a paleta, elevada, na esquerda, ostentando uma expressão grave. Cerrou levemente os olhos e percorreu com eles todo o perímetro do papel, como que selando a sua obra. Por fim, virou-se para uma pequena mesa que estava a seu lado, posou a paleta e mergulhou o pincel num boião de água límpida. Através da transparência do fino vidro, durante alguns segundos, foi possível contemplar-se o desenlace de um conjunto de fios avermelhados, como veias que revelavam o seu trajecto circulatório, responsáveis pela condução da cor a todas as fracções de matéria. Depois, girou o pincel no sentido dos ponteiros do relógio, e a água ficou totalmente tingida.
Finalizado o ritual artístico de Érica, Teresa caminhou para a frente da tela.

- Eu volto já – rematou Érica, que amontoara alguns dos vários recipientes de tinta, de modo a levá-los para dentro.
- O que é? – perguntou Margarida, curiosa.
- É o futuro – replicou Teresa.

Margarida transitou para junto de Teresa. No seu olhar espelhava-se um cenário supremo: Érica havia retratado o entornar dos raios do sol sob as planícies de verde esbatido. Todas as cores do crepúsculo bailavam, confusas, numa miscelânea de relevos celestiais. As nuvens eram como véus etéreos, que ora desvaneciam, ora incendiavam, rodopiando todo o seu esplendor eucromático ao longo daquele horizonte. O futuro... Sim, o futuro: o terno sorriso de Teresa fez a arquitecta abraçar a sua interpretação.
 
escrito por Esfinge, às 20:12 || ¤ Permalink ¤ 0 comments
domingo, 25 de Março de 2007
IV
Margarida abrigava a pequena Teresa nos seus braços, enquanto todo o episódio fatídico do fim dos Vasconcelos lhe ressoava na memória.
Deslizou-lhe a mão pelos fios de cabelo perfeitamente encaracolados e disse, em tom maternal:

- Lembras-te... daquela vez em que fazias anos... 9 anos... lembras-te? Foi nesse dia que vos conheci, a ti e aos vossos pais. E nesse dia... senti-me em casa, como não sentia há muito tempo. A vossa cumplicidade... a ternura a que inspiravam... E depois o Rafael tropeçou na toalha de mesa e veio tudo atrás... - sorria, saudosa – Mas... eles não iam querer que estivesses assim, sempre tristinha, hum? O que vos unia continua a unir-vos.

Tais eram as palavras da arquitecta. E Teresa ouvia-a, com uma atenção tão imperial como a longitude de que se fazia rodear primeiramente.

- Manteres-te assim, ainda, é como dizeres a ti própria que toda essa cumplicidade, toda essa união acabou. Não acabou, Teresa. Está viva, dentro de ti, hum? – exortou Margarida, serenamente – E agora, vamos a pôr um sorriso nessa carinha linda e vamos dar um passeio, combinado?

Tomou a chávena que oferecera à pequena há minutos atrás e conduziu-a para o interior da habitação, com a sensação de que aquelas palavras não deviam ter sido suas.
Posou a chávena na mesa da cozinha, onde repousava um livro de Rafael. Folheara-o vagamente, mas não conseguia apreender uma única palavra do que exprimia – o exemplar encontrava-se no dialecto original do seu autor, Homero. Homero, mais um insigne membro da vasta corte de artistas que inspiravam e espelhavam a delicada idiossincrasia de Rafael, o modelo de temperamento que Margarida mais reprovava e, simultaneamente, mais estimava. Como a jovem costumava dizer, “com o Rafael, o barulho ou é ruído ou eco”: o músico vestia-se sempre de poesia, falava e agia invariavelmente em dintorno.
Pouco depois, reproduziu os passos de Teresa, ascendeu ao topo das escadas e dirigiu-se para o seu quarto, de modo a eleger as vestes que iria trajar naquele dia. E enquanto conjugava no reflexo do espelho umas calças de ganga escura com um vasto elenco de blusas, revivia a astenia do amigo: o facto é que o primogénito dos Vasconcelos se absorvia cada vez mais naquele universo musical que ela, no entanto, não estava certa de ser assim tão harmonioso. Considerava todos os sorrisos do amigo demasiado transeuntes...
Mais objectiva que o músico, Margarida apreciava uma abordagem directa às adversidades que brotavam por entre o caminho. Planeava falar com Rafael, quando este chegasse, mas nenhuma daquelas reflexões batia em retirada do seu pensamento.
Três suaves batidas denunciavam a presença de Teresa, do lado exterior ao quarto de Margarida. Desvendou-lhe a entrada, abrindo a porta, e inquiriu-a, solícita:

- Então, pequenita, onde é que queres ir?
 
escrito por Esfinge, às 16:41 || ¤ Permalink ¤ 0 comments
sexta-feira, 16 de Março de 2007
III
E a música perdurava. O êxtase de Rafael trazia à memória um aroma de maresia, que ora recuava para o místico interior, ora embatia, impetuoso, nas rochas. O jovem estava verdadeiramente exímio. E como se lhe houvesse perecido o sopro da vida aquando da última nota, Rafael mantivera-se imóvel, como num quadro da Renascença.
Aplausos. No exterior do quadro em que Rafael repousava, assim que se fizera soar o último eflúvio da sua composição, todo o auditório se transfigurara em aplausos. Lentamente, o músico afastara das cordas do violino o arco. Margarida viu-o acender para a plateia o seu olhar hermético. Percorrera-a, como que perplexo ante a multidão - mas como se da sua quimera houvesse eclodido um precipício.
E, sem razão aparente, Rafael precipitara-se para os bastidores. Não acenara, não sorrira, não, não... A jovem não conseguira interpretar aquela reacção. Tudo o que amigo sempre desejara parecia estar a entranhar-se nos tecidos da realidade e, exactamente a um degrau para um promissor apogeu... Rafael depusera o seu estandarte e debandara.
Enquanto tais considerações assaltavam Margarida, ela debatia-se por entre a multidão para alcançar as traseiras do auditório. Contudo, a sua tentativa de ir ao encontro do violinista não se viria a interseccionar com a sua presença: quando a jovem finalmente alcançou os bastidores, informaram-na de que ele já havia saído.
Margarida acabara de embarcar numa nau que oscilava entre a confusão e a indignação. Discorria, em direcção ao exterior, sem conseguir encontrar uma explicação válida para o sucedido. E enquanto caminhava, principiava a espelhar-se no seu olhar o céu. Sob um fundo de azul desvanecido, o sol ornava o horizonte ainda, tingindo, em tons de carmesim, uma corte de nuvens expectantes.

- Ahh, Rafael... - suspirou.

Avistara-o ao longe. Após uma demonstração de todo o seu esplendor artístico, o jovem Orfeu perdido no tempo ostentava uma postura de absoluta devastação: derrapava paulatina, arrastadamente, percorrendo a parede com a camisa amarrotada, como se tudo lhe houvesse falhado.
Somente a sua sombra tutelava o seu instrumento musical, que o jovem não havia isolado convenientemente, circunstância que contrariava o zelo que sempre dedicava. Algumas madeixas de cabelo desprenderam-se do novelo que Margarida lhe havia enleado antes da audição, impedindo-a de antever a expressão de Rafael a alguns metros de distância deste.

- Rafael... - agachou-se, alarmada, quando o alcançou - Rafael, o que é que se passa?

Injuriando o olhar ao negro esquecimento do chão, o violinista passara as mãos pela barba, visivelmente agitado.

- Saíste do palco daquela maneira, agora vejo-te neste estado... O que é que aconteceu? Diz-me! – incitou Margarida.

Rafael içou devagar, excessivamente devagar, um olhar pesado. E detivera-se nela, subitamente.

- Os meus pais... - proferiu em sílabas trémulas.

E silenciou-se. Engolira amargamente o resto da frase. Engolira-a para não ecoar a sentença que sabia já a mão da Fortuna ter executado. Margarida enlaçou-o, surpresa. Tudo nele apontava para possibilidades trágicas.

- Eu tive um mau pressentimento e... oh Margarida, Margarida... - o azul safírico do olhar do jovem transbordava - eles tiveram um acidente, Margarida, eles morreram! Eles morreram...
 
escrito por Esfinge, às 21:54 || ¤ Permalink ¤ 1 comments
sábado, 10 de Março de 2007
II
E a música principiara, por fim. Era tocante. A metade hesitante de Margarida embriagara-se lentamente, avassalava-se, prostrava-se perante cada nota. Despedia-se dela, numa vénia, como se houvesse cumprido a sua função e agora regressasse onde pertencia. Assim fora a primeira vez que ouvira Rafael tocar para um grande público.
Como Margarida costumava dizer, Rafael era um "Orfeu perdido no tempo". Conheciam-se desde os tempos de faculdade. A jovem trabalhava numa livraria em part-time e Rafael fora lá conduzido pela paixão à poesia: inspirava-o à composição.
O músico entrara, de olhar hermético, deslocando-se em passos de simetria austera. Subira a espiral de escadas do templo de literatura e detera-se na secção que mais o encantava. Posou a caixa do violino e, como que flutuando, alcançou o exemplar que o seu olhar elegera. Folheara-o, num adágio de desvelo que a aspirante a arquitecta nunca antes havia presenciado. Após alguns minutos, Margarida viu-o sorrir. Caíra-lhe uma madeixa ondulada sob o semblante, que vaticinava o ímpeto que o tomaria seguidamente: Rafael fechara o livro e pegara na alça que sustentava o estojo que revestia o seu instrumento musical. E fora uma imagem deveras colossal, porque, com esse movimento exotérico, o jovem derrubara uma pilha de livros artisticamente dispostos ao meio do corredor.

- Eu vou matá-lo, eu juro que eu vou matá-lo! - conjecturou imediatamente Margarida.

Rafael, embaraçado, principiava a recolher do piso alguns exemplares, numa tentativa falhada de os devolver à sua disposição inicial: quando Margarida alcançou o último degrau da espiral de escadas e o abordou com um solícito desejo de uma boa tarde, o músico voltou-se e derrubou outra pilha de livros.

- Pára de destruir a loja! - vociferou-lhe a funcionária da livraria.
- Mas foi sem querer, eu...! - gesticulou o jovem.
- Não te mexas! - interrompeu-o, com as palmas das mãos juntas.

Margarida precipitou-se então em direcção aos livros espalhados pelo chão. Rafael posou de novo o estojo e afirmou:

- Vamos lá reequilibrar as torres de cultura!
- Eu bem digo ao senhor Lopes que os livros são para estar nas prateleiras... - desabafou a jovem.

Era bastante bela. O cabelo negro, liso, caía-lhe em escada pelos ombros abaixo, enquanto ela reunia os vários exemplares. E foi então que o azul safírico dos olhos de Rafael se deu a conhecer à terra do olhar de Margarida.

- Quando isto acabar, vou convidar-te para um café.
- E também destruir a pastelaria à tua passagem?

Riam-se. Era um riso caloroso, que deixava entrever a harmonia que enlaçaria os dois daí em diante.
 
escrito por Esfinge, às 20:38 || ¤ Permalink ¤ 0 comments
I
- Bom dia, pequenita.

A jovem olhara para eles.

- Já aqui... tão cedo? – inquiriu-a Margarida, oferecendo-lhe uma chávena.

A pequena aceitara-a com um leve sorriso. Ainda se não havia habituado à presença de Margarida, a melhor amiga do irmão.

- Um quarto para as oito... Tenho de ir para o conservatório... – murmurou Rafael, num tom absorto – ficas bem?
- Fica, que fica comigo... vai descansado.
- Tu, que até precisas que tomem conta de ti?
- Olha quem fala... - sorriu Margarida, enleando-lhe o cabelo que lhe caía, ondulado, sob a fronte.

Riam-se. Era um riso caloroso, uma miscelânea de alegria que coloria os olhares dos dois em tons de cumplicidade. Mas o tempo, o inexorável tempo, cavalgava em direcção àquela esfera, clamava por Rafael...

- Dez para as oito... tenho mesmo de ir – afirmou, fitando o relógio apreensivo – até logo, meninas.

E assistiram juntas, do alto do eirado, à correria de Rafael. Era sempre assim desde a mudança de Margarida.

- O teu irmão é um achado...

Na verdade, não fora apenas a diligência de aliviar a amiga das viagens diárias de Leiria que motivava Rafael a dividir a casa com Margarida. Era a pequena Teresa que o inquietava. Desde que ela viera viver para sua casa, que lhe conhecia aquela peregrinação matinal: todos os dias Teresa se antecipava ao nascer do sol, como se a aurora a reclamasse anfitriã para dançar, áurea, sob o manto negro do céu. E, agora, também Margarida assistia diariamente à estadia taciturna da pequena Teresa no eirado, uma presença envolta numa longitude imperial.

- Isto é muito bonito! - exclamou - Eu vivia num apartamento, não tinha esta vista.

O facto é que também Margarida não sabia como abordá-la. O silêncio de Teresa parecia arremessar todos os circundantes para um calabouço, sendo apenas possível pressenti-la do outro lado da muralha.
Porém, desta vez, Teresa olhou para Margarida. Olhou-a longamente, do profundo verde do seu olhar. Olhou-a, como que a convidando a trespassar o espaço que a separava do mundo. Margarida, por seu lado, experimentava uma diplofonia anímica, receosa da pequena entrever nela uma intrusa.

- Tenho saudades deles – desvaneciam os lábios de Teresa.
 
escrito por Esfinge, às 03:47 || ¤ Permalink ¤ 0 comments